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O relatório final mostra um retrato global da juventude e das suas aspirações, desejos e preocupações.
Artigo publicado a 2018-03-25 /// 294 visualizações
 
Jovens pedem uma Igreja «transparente, acolhedora, honesta, comunicativa e acessível»
No final dos trabalhos da assembleia pré-sinodal que acolheu em Roma mais de 300 jovens de todo o mundo para refletirem sobre a juventude.
O relatório final mostra um retrato global da juventude e das suas aspirações, desejos e preocupações. O Papa Francisco tinha pedido que os jovens falassem sem filtro, sem vergonha, e o Documento Final, «aprovado por unanimidade», informou o Cardeal Lorenzo Baldisseri, responsável por este evento, toca muitos dos aspetos da vida dos jovens em todo o mundo, embora deixe, de forma algo surpreendente, outros aspetos de fora.

Jovens pedem mais protagonismo e acompanhamento
Um dos aspetos mais falados durante toda a semana tem sido a necessidade de dar aos jovens maior protagonismo nas suas ações, e o relatório dedica um ponto a esta questão. «A Igreja deve envolver os jovens nos seus processos de tomada de decisão e oferecer-lhes mais papéis de liderança. Essas posições precisam de ser ao nível paroquial, diocesano, nacional e internacional, inclusive em comissões no Vaticano», refere o documento. Segundo os jovens escreveram, eles estão «prontos».

Outro dos aspetos mais significativos que tem sido falado neste pré-sinodo é o acompanhamento. Os jovens pedem, quase exigem, «companheiros na jornada», «homens e mulheres fiéis que expressam a verdade e permitem que os jovens expressem a sua compreensão da fé e da sua vocação».

Pessoas que «evangelizem com a sua vida», e não "santos". «Essas pessoas não precisam de ser modelos de fé para imitar, mas sim testemunhos vivos. Essas pessoas devem evangelizar com a sua vida. Sejam eles rostos familiares no conforto de casa, colegas da comunidade local ou mártires que atestam a sua fé com as suas próprias vidas», pedem.

Aborto, contraceção, coabitação, homossexualidade e casamento são pontos de discórdia
Em assuntos mais polémicos, é possível perceber que as diferenças de opinião eram grandes. No que toca a temas como contraceção, aborto, homossexualidade ou coabitação, o relatório refere que «há grande desentendimento entre os jovens, dentro da Igreja e no resto do mundo», sobre estes temas, mesmo entre aqueles que têm «mais conhecimento dos ensinamentos da Igreja». «Como resultado disto, alguns podem querer que a Igreja mude os seus ensinamentos ou pelo menos permita acesso a uma maior compreensão e formação sobre esses ensinamentos. Outros aceitam estes ensinamentos e veem neles uma fonte de alegria», reconhecem os jovens no documento, que não adianta como os jovens gostariam que a Igreja abordasse estas questões, ou que tipo de alterações poderia a disciplina ter.

Noutros pontos em que a discórdia parece estar na ordem do dia, como a oposição entre tradicionalistas e progressistas, o relatório pede uma convivência mais salutar que o que é observado muitas vezes nos confrontos virtuais que se vão observando. «Alguns de nós têm uma paixão pelo "fogo" dos movimentos contemporâneos e carismáticos que se concentram no Espírito Santo; outros são atraídos para o silêncio, a meditação e as liturgias tradicionais reverenciais. Todas essas coisas são boas, porque ajudam-nos a rezar de maneiras diferentes», reflete o documento.

Críticas à falta de testemunho dos pastores e das comunidades
O Papa pediu que falassem sem vergonha, e os jovens falaram. Acusam a Igreja de, por causa dos escândalos do passo e do presente, ter feito com que a religião não seja «o principal referencial quando os jovens procuram um sentido [para a sua vida, para a sua existência]», e apontam o dedo a muitas paróquias em todo o mundo, «que já não são lugares de encontro», e a Igreja surge como «muito severa», associada a um «excessivo moralismo».

E é por isso que pedem uma Igreja que seja «comunidade transparente, acolhedora, honesta, convidativa, comunicativa, acessível, alegre e interativa». «Hoje os jovens procuram uma Igreja verdadeira», continuam os jovens no seu relatório, uma «igreja credível», sem «medo de se permitir ser vista como vulnerável». «A Igreja deve ser sincera em admitir os seus erros passados e presentes, em dizer que é uma Igreja composta por pessoas que são capazes de erros e incompreensões. (...) Se a Igreja agir assim, então diferenciar-se-á de outras instituições e autoridades das quais os jovens, na maior parte, já desconfiam», pode ler-se no ponto 11.

Presença essencial nos meios digitais
Falando da «dualidade» Bem/Mal que as novas tecnologias e o ambiente digital representam, o Documento Final da Assembleia pré-sinodal pede «prudência» na sua utilização, por causa dos riscos de «isolamento», mas acrescenta que o impacto das redes sociais não pode ser desvalorizado. «Os ambientes digitais têm um grande potencial para unir, como nunca, pessoas em diferentes partes do mundo. A troca de informações, ideais, valores e interesses comuns é agora mais possível. O acesso a ferramentas de aprendizado online abriu oportunidades educacionais para jovens em áreas remotas e trouxe o conhecimento do mundo para as pontas dos dedos», refere o relatório.

Neste sentido, os jovens sugerem aos padres sinodais e a toda a Igreja «duas propostas concretas». «Ao envolver-se num diálogo com os jovens, a Igreja deve aprofundar a sua compreensão da tecnologia para nos ajudar a discernir sobre o seu uso. Além disso, a Igreja deveria ver a tecnologia - particularmente a internet - como um lugar fértil para a Nova Evangelização», dizem. E propõem que «os resultados dessas reflexões» sejam «formalizados num documento oficial da Igreja». Depois, propõem que a Igreja aborde «a crise generalizada da pornografia, incluindo os abusos infantis online, o cyberbullying e o impacto que isto causa à nossa humanidade».

A terminar, os jovens pedem que a Igreja esteja nas «ruas, que é onde a maior parte das pessoas estão». «A Igreja deve tentar encontrar novas maneiras criativas de encontrar pessoas onde elas estão confortáveis e onde socializem: bares, cafés, parques, ginásios, estádios e quaisquer outros centros de cultura populares», pedem os jovens.

Este documento será entregue amanhã, Domingo de Ramos, ao Papa, durante a missa de Ramos, por um jovem do Panamá, país que irá acolher a próxima Jornada Mundial de Juventude, e vai ser uma das bases de trabalho para a elaboração da Instrumentum Laboris que irá orientar os trabalhos do Sínodo dos Bispos em outubro.

Texto e fotografia de: Ricardo Perna.

A Flor de Lis está em Roma a acompanhar esta reunião pré-sinodal do Papa com jovens de todo o mundo. Acompanhe tudo nas redes sociais do CNE.
 
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