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O Papa com os jovens e "o nosso Rui".
Artigo publicado a 2018-03-19 /// 530 visualizações
 
Os jovens que interpelam o Papa
Teve início hoje a assembleia pré-sinodal de jovens, em Roma. O Papa esteve presente e em diálogo com os jovens presentes na sala e através das redes sociais.
O Papa Francisco deu início hoje à assembleia pré-sinodal que reúne 340 participantes de todo o mundo com um discurso muito direcionado para os jovens que o ouviam atentamente, na sala e através das redes sociais. Após o Cardeal Baldisseri, secretário-geral do sínodo, ter anunciado que estavam inscritos 15 mil jovens para os trabalhos do dia nas redes sociais, o Papa começou por saudar os «15.340 jovens» que estavam à sua frente. «E esperamos que amanhã sejam 21 mil», brincou, para gáudio dos presentes, que aplaudiram fortemente.

A expetativa dos jovens em relação a este pré-sínodo foi aumentada ainda mais pelas palavras do Papa Francisco. Num discurso com muitas intervenções pessoais que não estavam previstas, o Papa exortou os jovens a fazerem ouvir-se. «Não basta trocar algumas mensagens ou partilhar fotos simpáticas. Os jovens têm de ser levados a sério!», disse, na sua primeira intervenção, após ter recebido no Pontifício Colégio Internacional "Mater Ecclesiae", em Roma.

E por isso mesmo "exigiu" que os jovens falassem a partir «do coração». «Falem com coragem, sem vergonha, essa fica à porta. O que sentirem digam, e se alguém aqui se sentir ofendido há de perdoar», disse, entre risos.

Mais a sério, o Papa agradeceu a presença de todos e explicou que este contributo dos jovens é importante na preparação do sínodo de outubro. «Precisamos de vós para preparar o Sínodo, que reunirá os Bispos em outubro sobre o tema Juventude, fé e discernimento vocacional. Em muitos momentos da história da Igreja, bem como em inúmeros episódios bíblicos, Deus quis falar através dos mais novos: penso, por exemplo, em Samuel, David e Daniel. Com as devidas diferenças, acredito que estes dias também fale através de vocês», disse.

Neste sínodo, estão presentes três jovens portugueses, entre os quais o Rui Teixeira que representa não apenas o CNE, mas o escutismo católico de todo o mundo, através da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE).

Ele é um dos 340 jovens ali presentes. Dos outros, cinco foram convidados a discursar perante o Papa, para lhe apresentar as preocupações de cada continente do mundo.

Jovens pedem ao Papa uma igreja que acompanhe e dê testemunho

Tendai Karombo, do Zimbabué, representava os jovens africanos, e agradeceu ao Papa esta «plataforma» sinodal, que lhes dá «mais esperança no que podemos esperar da sociedade e da Igreja», referiu.
Esta jovem africana apontou as condições socioeconómicas que muitos jovens e as suas famílias encontram como razão para «migrações, violência política, mortes, materialismo, só para citar algumas» das dificuldades que afetam as famílias. Criticou os pais que usam em demasia as redes sociais e «deixam de lado as crianças», e pediu que a Igreja acompanhasse os jovens que fazem o Crisma e ficam “abandonados”. «Depois do crisma, faltam opções, não há programas de continuação da fé para os jovens, e muitas paróquias não dão apoio aos grupos que vão aparecendo», apontou.

Nicholas Lopez veio do Texas para representar toda a América. Por isso, e em honra da sua herança, iniciou o seu discurso em espanhol, o que originou um sorriso da parte do Papa, também ele sul-americano. Depois, já em inglês, explicou ao Papa que, na América, «muitos jovens são céticos em relação à religião e desconfiam dos nossos líderes religiosos», e que isso os impede de aprofundarem a sua fé. A «procura do seu lugar no mundo» faz.se lidando com as frustrações do dia-a-dia, atarefa que, dizia este jovem, será mais fácil de fazer se a Igreja ajudar e estiver presente.

Da Ásia veio Cao Huu Minh Tri, do Vietname, que falou ao Papa do problema da violência entre os jovens, responsável por milhares de mortes naquele continente. «Por causa dos jogos e redes sociais, passam muito tempo no computador e não se relacionam, e depois a violência é muito fácil de se espalhar», explicou à Família Cristã no intervalo dos trabalhos, afirmando que pediu ao Papa uma nova forma de comunicar a linguagem do Evangelho pois, «se os jovens compreenderem a mensagem que a Igreja está a passar, eles aderem a ela. O problema é que muitos não compreendem o que se diz», lamentou.

A jovem da Oceânia trazia a história mais complexa. Angela Markas é filha de imigrantes iraquianos, começou logo por dizer que só a realização desta assembleia já manda «uma mensagem importante para o mundo». Angela refere que «os jovens sentem-se desligados da Igreja, seja por se sentirem afastados dos clérigos mais velhos, ou por não se sentirem ouvidos, ou acolhidos com amor. Precisam de um local onde se sintam seguros, bem-vindos e amados. Só depois podem olhar para si com paz no meio de um mundo com tanto ruído», disse ao Papa.

A concluir, o Papa lançou o apelo mais forte do seu discurso. Afirmando que a Igreja precisa de jovens «profetas», reconheceu que os mais velhos têm alguma dificuldade em sonhar para avançar. «Precisamos de jovens profetas. Façam sonhar os mais velhos!», exortou, de forma veemente.

Francisco considera que a Igreja precisa de «arriscar», e que os jovens devem correr esses riscos. «Devemos arriscar, porque o amor pode arriscar. Sem arriscar, um jovem envelhece, e a Igreja também envelhece».

A tarde de hoje e o dia de amanhã será ocupado com os trabalhos em pequenos grupos linguísticos. De lá sairão as propostas que irão compor o documento final que irá ser apresentado ao Papa, e que permitirá preparar o Sínodo dos Bispo de outubro com a certeza de que irão ser abordados os assuntos que os jovens precisam que sejam abordados.

Texto e fotografia de: Ricardo Perna.

A Flor de Lis está em Roma a acompanhar esta reunião pré-sinodal do Papa com jovens de todo o mundo. Acompanhe tudo nas redes sociais do CNE.
 
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