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João Armando Gonçalves pretende continuar ligado ao Escutismo, uma das suas grandes paixões.
Artigo publicado a 2017-08-14 /// 7957 visualizações
 
«As pessoas dizem-me que vou deixar um lugar difícil de ocupar...»
Com o início da Conferência Mundial do Escutismo hoje, no Azerbeijão, termina o mandato de três anos do português João Armando Gonçalves à frente dos destinos da maior organização mundial de juventude, quase com 50 milhões de membros.
Com o início da Conferência Mundial do Escutismo hoje, no Azerbeijão, termina o mandato de três anos do português João Armando Gonçalves à frente dos destinos da maior organização mundial de juventude, quase com 50 milhões de membros. Em entrevista à Flor de Lis, aquele que é considerado o "chefe mundial" dos escuteiros faz um balanço positivo de uma "aventura" que o levou a conhecer realidades tão distintas e que, ao mesmo tempo, são tão próximas por via desta "fraternidade" que Baden-Powell criou há mais de 100 anos e que hoje se mantém ativa e a influenciar jovens em todo o mundo.

Três anos depois... uma grande aventura?
[Risos] Sim, enorme. Foi uma aventura muito intensa, mas as aventuras são mesmo assim. Foi bom.

Que balanço fazes?
Eu costumo dizer que sou sempre um bocadinho suspeito, mas o balanço é mesmo muito positivo. Do que vou ouvindo das pessoas que me vão abordando, mesmo daquelas insuspeitas, que por vezes são um bocado mais críticas, o balanço é muito positivo. O contributo que o Comité deu nestes últimos três anos foi importante para a organização. O primeiro de todos é pouco palpável, mas é um feeling. Há três anos tínhamos de facto um movimento bastante mais fragmentado em termos de regiões, e penso que hoje há um sentimento comum muito maior, um orgulho de pertencer a esta família grande, e isto é reconhecido por todos, quer pelos voluntários, quer pelos profissionais.
Do que é a nossa visão da imagem que as associações têm do que é o nosso trabalho, penso que se fez caminho. Não tanto no número de escuteiros que temos, que gostaríamos que fosse maior, mas noutras coisas. Não é apenas chegar aos 100 milhões, é mais do ponto de vista do reforço enquanto movimento educativo, dos valores. Nisso houve caminho feito. Depois, a nível mais prático, houve o concretizar de uma série de projetos, e a nível do Comité houve um salto qualitativo muito grande, pois houve a preocupação de melhorar a forma como trabalhamos internamente, de melhorar a governância. Passou a ser de facto um conselho de administração a funcionar melhor, a dar contas sobre o que andava a fazer, a comunicar melhor, a avaliar com uma preocupação de constante melhoria. As pessoas dizem-me que vou deixar um lugar difícil de ocupar, pelo que fui fazendo, e fico satisfeito.

Tinhas também falado da necessidade de melhorar a noção que a sociedade tem do trabalho que fazemos. Isso aconteceu?
Sim, de duas maneiras: por um lado, começámos a dar muito mais ênfase às histórias que vão acontecendo nos países e nas bases, do que os escuteiros estão a fazer nas suas comunidades. Antes éramos mais institucionais, e agora a ideia é abandonar isso e mostrar na realidade o que os escuteiros fazem no campo. Por outro lado, do ponto de vista dos parceiros, o trabalho só agora vai começar, até porque o perfil do novo secretário-geral permite isso. O nosso posicionamento enquanto organização juvenil ao nível mundial vai claramente crescer. Onde vai ser muito visível é no nosso envolvimento nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, onde queremos de facto envolver-nos de forma organizada enquanto maior associação juvenil do mundo. E vamos receber de um dador 2,5 milhões de dólares nos próximos dez anos só para projetos sobre isto, que envolvam escuteiros, o que vai ajudar bastante nesta intenção.

Falavas também na necessidade de conheceres a realidade de todo o mundo. Imagino que tenhas tido oportunidade. Como é que foi essa viagem?
Foi o aspeto mais rico do meu mandato. Enquanto membro do Comité apenas, já tinha tido um vislumbre dessa realidade, mas enquanto presidente aumentaram as visitas aos países, às atividades como esta [a entrevista aconteceu durante o Acanac]. Reforçou uma ideia que eu já tinha, entre as diferenças e as semelhanças do Escutismo em todo o mundo. Há um conjunto de coisas que são comuns onde quer que vamos, nos valores fundamentais, ou sinais exteriores, como o lenço, que mostra que pertencemos a uma fraternidade. A palavra de B-P vê-se ainda hoje, não era conversa. Mas depois a capacidade adaptativa do movimento onde quer que ele se insere é o mais fascinante. Irmos à Costa do Marfim e ver os programas que oferecemos aos miúdos para cultivarem as suas próprias hortas e fazerem dinheiro com isso e darem de comer à família, que é tão diferente dos projetos nos Estados Unidos ou aqui em Portugal. E essa capacidade adaptativa é o que tem feito com que o movimento tenha tido tanto sucesso ao longo dos últimos 100 anos, e é algo com que devemos manter. Conseguir encontrar escuteiros em qualquer parte do mundo com os quais eu partilho coisas sem nunca os ter visto é o mais incrível.

E aquele “mito” que, encontrando um escuteiro em qualquer parte, há uma ligação imediata, é real?
É imediato, é daquelas coisas que não se explica, há uma espécie de maneira de pensar comum, e não se consegue explicar bem como é que surge essa identificação, é uma coisa quase intuitiva, como se nos conhecêssemos há muito tempo... é muito engraçado.

O presidente do Comité Mundial é sempre aquela figura desconhecida e distante. Conseguiste trazê-la mais “à terra”?
Acho que isso vai variando com o perfil da pessoa que ocupa a posição. Eu gosto muito do contacto direto com as pessoas. Não quer dizer que seja fácil, pelo meu feitio, mas, ao longo deste tempo, aproximei-me das pessoas e dei-me a conhecer. Uma coisa importante para mim foi passar a ideia de que ser presidente do Comité Mundial é um serviço igual ao de qualquer Dirigente no seu agrupamento. Tentei muito passar esta ideia, de ser um Dirigente como os outros, ao serviço, e aproximei-me muito. Fui a sítios onde o presidente do Comité nunca tinha ido, e, se queres que te diga, acho que o perfil e os genes portugueses ajudaram nisso. Aquela ideia de enquanto portugueses termos andado pelo mundo inteiro deu-me preparação para estar com estas pessoas todas. Lembro-me de estar em África algumas vezes e as pessoas dizerem que eu era africano, e esta proximidade é muito nossa, e isso ajudou a tornar o cargo de presidente menos estratosférico e mais próximo das pessoas. Tive milhares de contactos durante este tempo, de pessoas a pedirem vídeos para o grupo que faz anos...

De grupos locais?
Sim, sim. Lembro-me que o primeiro contacto foi no dia em que me fizeste esta mesma entrevista, no início do mandato, de uma chefe da Argentina que me vinha pedir para fazer um vídeo pequenino, porque o grupo dela fazia não sei quantos anos, e nesse dia gravei esse vídeo também, e a partir daí foi sempre assim. Não conseguia ter grandes contactos pelo Facebook, mas sempre me esforcei por responder a todos, para que as pessoas percebessem que há uma estrutura mundial, um presidente...

Quando pensamos em crises, como os refugiados, um terremoto ou os incêndios aqui em Pedrógão, conseguimos perceber que há sempre escuteiros a ajudar... é um orgulho?
É um enorme orgulho, e é daquelas coisas que é um orgulho ver o espírito com que as pessoas fazem isso e o reconhecimento que lhe é dado. Mas uma das coisas de que gosto especialmente é o espírito com que fazem isso não para dar nas vistas, mas de forma discreta, sem se pôr em bicos dos pés. E é uma das maiores lições que damos a todas as outras pessoas envolvidas nestes desastres: o nosso nível de organização e mobilização, a disciplina com que o fazemos, e depois fazer o que tem de ser feito, de forma discreta, é mesmo um enorme orgulho que eu sinto, e vamos recebendo reações de pessoas de fora que reconhecem o trabalho que fazemos. O Be Prepared é isto, atuar quando as coisas acontecem. E cada vez teremos de estar mais preparados para isto. Com estas coisas das mudanças climáticas, é de facto um fenómeno para o qual teremos de estar mais bem preparados. Quando há tempos falava com o presidente da região asiática, ele dizia-me que uma das coisas que afetava o normal funcionamento do Escutismo naquela zona eram as catástrofes que sucediam com cada vez maior regularidade, o que fazia com que os programas educativos que se iam oferecendo se focassem mais nisso, por ser algo em que os escuteiros estavam sempre a participar. Infelizmente, vamos ter de estar bem mais preparados para o futuro.

O que é que ficou por fazer, ou podia ter sido feito de forma diferente?
Ficou muita coisa por fazer, por isso é que tenho a sensação que gostava de ficar mais um tempo [risos]. Gostava de podermos apresentar hoje números de efetivo maiores. Temos registados 40 milhões, mas fizemos uns estudos e teremos cerca de 50 milhões de escuteiros em todo o mundo, porque alguns não estão registados. Gostava que o reconhecimento do movimento fosse ainda maior, que pudéssemos ser players mais ativos na senda internacional. Mas mesmo assim, olhando para o nosso caminho e para o nosso plano trienal, estamos satisfeitos, porque há progresso feito.
Os eventos mundiais que tivemos foram excelentes, estamos a oferecer eventos de qualidade ao nível mundial.

E agora? Terminado o mandato, o que é que o João Armando vai fazer?
Para já, um grande descanso [risos]. Depois, não tenho planos. Quero continuar ligado ao Escutismo, mas não sei. Tenciono estar ao dispor, porque a paixão pelo Escutismo não morre. Quem acredita verdadeiramente nisto, como é o meu caso, não diz que já não quer saber disto para nada.

Vês-te de novo como chefe de unidade na Figueira da Foz ou noutro agrupamento?
Acho difícil. De vez em quando penso se ainda consigo ser chefe de clã, mas já não sei se tenho energia. É que esse é um compromisso permanente, que do ponto de vista do empenho não é diferente daquilo que fui enquanto presidente do Comité Mundial, e portanto esse tipo de compromisso permanente não sei se consigo. Mas partilhar o que fui aprendendo com os outros, e se puder ajudar os mais novos em algumas coisas que vão acontecendo, terei imenso gosto e acho que é uma obrigação, até pelo apoio que recebi do CNE. Queria até aproveitar a ocasião para agradecer isso, porque foi muito bom sentir-me acompanhado em todo este tempo. Todo o apoio que tive desde a primeira hora, e o apoio que recebi durante este tempo, e o carinho que fui recebendo dos escuteiros de todo o país, que me convidavam para isto e para aquilo, os vídeos... o carinho que senti nestas 22 mil pessoas ontem [na cerimónia de abertura do Acanac] fui recebendo durante todo este tempo, e sempre tentei responder afirmativamente, porque sempre me deu gozo partilhar o que ia fazendo.

Texto de: Ricardo Perna. Fotografia de: Nuno Perestrelo.
 
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